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domingo, 29 de janeiro de 2012

Desabamento no Rio: de quem é a culpa?


Saiu na Folha do dia 26/01/12:

Três edifícios desabam no centro do Rio

Três prédios desabaram ontem por volta das 20h30 no centro do Rio. Até a 0h, cinco pessoas feridas haviam sido retiradas dos escombros e levadas para o Hospital Souza Aguiar, também no centro (…)
Segundo o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Sérgio Simões, a principal hipótese para o desabamento é uma obra que era realizada em um andar do Liberdade (…)
‘Possivelmente foi problema estrutural’, disse o prefeito Eduardo Paes (PMDB) (…)
Às 21h30 houve um princípio de incêndio. De acordo com bombeiros, havia forte cheiro de gás no local. Jornalistas e curiosos foram afastados. Um cordão de isolamento mantinha todos a cerca de um quarteirão do local


Precisamos achar um culpado para aquilo que sai do normal. De preferência alguém que possa ser punido, ou seja, humano. Se lemos que alguém morreu quando voltava do trabalho para casa, o primeiro impulso é suspeitar que o morto cometeu uma barbeiragem, que foi vítima da barbeiragem alheia, de um defeito mecânico em seu veículo (provavelmente causado por alguém durante a construção) etc. As hipóteses de que ela tenha morrido de isquemia cardíaca ou derrame cerebral não estão entre nossas primeiras suspeitas, ainda que 11 vezes mais pessoas morram dessas duas causas do que de acidente automobilístico. Quando perguntamos qual o grupo etário e razão mais provável de morrer de câncer de mama, as respostas são 'por volta dos 40' e 'estilo de vida', embora a maior causa de câncer seja o envelhecimento natural a que todos estamos sujeitos. Depois dos 80 anos, nossa probabilidade de morrer de câncer é, infelizmente, enorme (dois terços das mulheres diagnosticadas com câncer de mama têm mais de 60 anos). Velhice não tem um culpado; estilo de vida tem.

O maior risco na investigação de uma tragédia como a da matéria acima é partir de uma resposta para chegar a uma explicação. Pior: partir da presunção de que há um culpado humano. Dizer 'foi isso' ou 'foi tal pessoa' é perigoso porque, de cara, elimina todas as outras possibilidades e leva quem fez a declaração a constantemente buscar provas para justificar sua resposta.

Pode ter sido uma obra dentro do prédio. Se foi, a culpa é de quem fez a obra sem tomar os cuidados necessários, ou de quem contratou a obra sem seguir as formalidade de autorização, ou de quem autorizou a obra quando não deveria, ou de quem deixou de fiscalizar quando deveria. Pode ter sido um problema estrutural, e nesse caso a culpa é de quem construiu o prédio, ou de quem aprovou sua construção, ou de quem não cuidou da manutenção, ou de quem não fiscalizou ao longo dos anos. Pode ter sido um vazamento de gás que causou alguma explosão. Se foi, a culpa é de quem não fez a manutenção adequada, ou de quem instalou a estrutura de forma incorreta, ou de quem não detectou quando deveria ter detectado. E pode ter sido qualquer outro motivo. Alguns causados por pessoas, outros não. Mas tudo isso é especulação. Não dá para dizer o que foi sem provas sólidas.

Só saberemos depois de uma investigação bem feita. E investigações bem feitas tomam tempo. E isso vai contra um segundo traço da natureza humana: somos imediatistas. Queremos saber quem é o culpado agora, não mês que vem. Buscamos a satisfação imediata. Nos empanturramos de doces hoje porque nos dão prazer imediato, ainda que saibamos que a longo prazo seria melhor se começássemos a fazer esportes hoje. Mas esporte toma tempo para gerar satisfação.

Agora se coloque no lugar do investigador: de um lado, há a imprensa e o público exigindo respostas imediatas e dizendo que sua incapacidade de dar essas respostas é prova de sua incompetência ou algo pior. E de outro, você sabe que a única forma de dar uma resposta correta é fazendo uma investigação séria, e isso vai tomar tempo e, quando o resultado finalmente sair, todos já estarão falando de uma outra tragédia (e você já terá a pecha de incompetente sobre você para sempre).

A própria Folha trouxe hoje um exemplo do que acontece quando os agentes do Estado sucumbe à pressão por uma resposta imediata e deixam de lado a investigação:

Daniela Toledo do Prado tinha 21 anos quando foi acusada por uma médica, em uma sala de emergência, de cometer um crime pavoroso: matar a própria filha, uma criança de um ano e três meses, com uma overdose de cocaína.
Em estado de choque, sem conseguir dizer quase nada em sua defesa, foi presa e levada pelos policiais, sob gritos de ‘vagabunda’, para a cadeia, onde foi espancada.
Seu rosto ficou desfigurado. Teve a clavícula e a mandíbula quebradas. Perdeu a audição do lado direito - uma das detentas enfiou e quebrou uma caneta em seu ouvido. Apesar dos gritos, ninguém a socorreu e, somente após duas horas, foi levada, em coma, para o hospital.
Trinta e sete dias depois, porém, foi solta quando um laudo provou que não era cocaína o pó branco achado na mamadeira e na boca da menina (...)
Desempregada, evita até hoje sair de casa sozinha por medo de apanhar em razão da repercussão do caso - era chamada de ‘monstro da mamadeira’. Toma antidepressivos, assim como seu filho de oito anos; diz sofrer dores fortes na cabeça e convulsões. ‘Não me esqueço do delegado. Dizia ter aberto o corpo de minha filha, que estava cheio de cocaína’
”.

Tanto a imprensa quanto a população podem - e devem - vigiar o trabalho de investigação do Estado. E devem exigir que sejam eficientes e expedientes. São direitos nossos. O problema está no tipo de pergunta que queremos que sejam respondidas durante a investigação. Devemos perguntar não de quem é a culpa (porque é para isso que há uma investigação), mas como é que as razões do acidente serão apuradas, em que estágio estão tais investigações, que passos já foram tomados e quais os próximos passos. Perguntar de quem é a culpa só faz sentido depois que houve uma investigação. Até lá, é especulação. Pitaco.

Fonte: blog para entender direito (folha.com)

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