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sábado, 29 de dezembro de 2012

A barbárie e o exílio de Deus


Há quase duas semanas, o mundo inteiro ficou chocado com o banho de sangue promovido na escola primária Sandy Hook, na pequena cidade de Newtown, Connecticut. O saldo total de mortos foi de 28 pessoas: vinte crianças com idades entre 6 e 7 anos, seis funcionários da escola, o atirador – Adam Lanza, 20, que cometeu suicídio quando a polícia chegou ao local – e sua mãe, a primeira das vítimas. Desportistas homenagearam as vítimas, diversos memoriais foram erigidos ao redor do país, um sem-número de faixas de solidariedade enfeitou as varandas e fachadas das residências da pequena cidade e o presidente dos Estados Unidos em pessoa, Barack Obama, esteve em Newtown para prestar suas condolências a todos que foram diretamente atingidos por esse horror.

Um dos memoriais feitos em memória das vítimas de Sandy Hook.

Como sói acontecer nesses momentos de tristeza e choque, diversas vozes oportunistas levantaram-se em meio ao generalizado sentimento de luto para apontar os culpados por essa tragédia e exigir que fossem punidos. E que culpados seriam esses? A pretensa cultura belicista norte-americana e a suposta facilidade em adquirir armas de fogo foram as campeãs dentre os elencados. É algo surpreendente como pululam “especialistas” em noticiários televisivos, jornais impressos, portais de notícias e outros veículos de comunicação, e é igualmente surpreendente a quase unanimidade entre eles. Isso quando não aderem a isso aqueles velhos e gastos chavões da “turma do bem” – apensar os termos “conservador”, “provinciano”, “supremacista” e “retrógado” ao americano médio que representa, no fim das contas, a tal cultura belicista vigente nos Estados Unidos. A solução para tudo isso, de acordo com os “especialistas”, é simples: desarmar a população civil, controlar vigorosamente a concessão do porte e a venda de armas, adotar políticas que se pautem pelo multiculturalismo – tudo, claro, a expensas da população via Estado.

Todavia, não é a facilidade em se adquirir armas de fogo em território norte-americano, muito menos a fantasiosa cultura belicista daquela nação, que são responsáveis por atrocidades como a de Newtown. Adam Lanza não é produto de uma tal cultura. Adam Lanza é um fenômeno global cujos fundamentos são bastante distintos dos escolhidos pelos “especialistas” de última hora: o divórcio entre direitos e deveres; a supressão da responsabilidade em nome de uma liberdade sem amarras; a idéia de que o homem é um ser histórica e socialmente construído, fruto das vicissitudes do momento, uma tabula rasa que pode ser moldada ao discricionário bel-prazer dos “iluminados”; a desumanização do homem, cujo valor é mensurado não pelo que é e faz, mas de acordo com o grupo, real ou fictício, que integra. Tudo isso, e outras coisas mais, concorrem para a formação de um homem egoísta, corroído por um hedonismo niilista e autodestrutivo, um homem mutilado e patologicamente vulnerável a todo tipo de insanidades e loucuras; um homem, ao fim e ao cabo, que se esqueceu de Deus.

Quem afirma isso não sou eu, mas alguém que sofreu na própria carne os horrores da erosão humana provocada pelo ateísmo mais fanático e raivoso: Aleksandr Solzhenitsyn. Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1970, Solzhenitsyn mergulhou profundamente nos alicerces do totalitarismo socialista – do qual foi prisioneiro entre 1945 e 1956 – e, após décadas, afirmou:
Mais de meio século atrás, quando eu ainda era uma criança, lembro-me de ter escutado um grupo de pessoas mais velhas darem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

Desde então, passei cerca de cinqüenta anos trabalhando na história de nossa Revolução; nesse processo, li centenas de livros, coletei centenas de testemunhos pessoais, e contribui com oito tomos de minha própria autoria para com o esforço de limpar os destroços deixados por aquela revolta. Mas se me pedissem hoje para formular concisamente qual foi a principal causa da ruinosa Revolução que engoliu quase sessenta milhões de russos, eu não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

E mais: os eventos da Revolução Russa só podem ser compreendidos agora, no fim do século, contra o pano de fundo do que tem ocorrido desde então no resto do mundo. O que ocorre aqui é um processo de importância universal. E se fosse requisitado a identificar brevemente a principal característica de todo o século XX, eu seria incapaz de encontrar algo mais preciso e essencial do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus.”
O mundo jamais viu um esforço tão colossal em expulsar Deus de todas as esferas da vida humana do que o presenciado no século XX. A perseguição religiosa – não de qualquer religião, mas especialmente do Cristianismo – alcançou níveis inimagináveis. As maiores e mais mortíferas doutrinas políticas e sociais da nossa era – socialismo, nazismo, fascismo, comunismo – foram erguidas sobre sólidos alicerces anti-religiosos. Só que, hoje, a perseguição anticristã não é um privilégio exclusivo de regimes totalitários como os de outrora: ela é um dogma difuso que, como um vírus, tem se espalhado lentamente pelo Ocidente, conquistando mentes e corações incautos com discursos aparentemente libertários e progressistas. Adam Lanza é um filho legítimo desse cancro sócio-cultural.

Dois dias depois do massacre de Sandy Hook, Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas pelo Partido Republicano e apresentador do canal Fox News, fez uma reflexão absolutamente fantástica sobre como o afastamento sistemático e deliberado de Deus da vida das pessoas, algo transformado inclusive em política de governo nos Estados Unidos, foi responsável pelo derramamento de sangue em Newtown:


Há decerto aquelas pessoas que advogam que Deus deve se manter somente na esfera privada da vida humana e que qualquer manifestação pública, sobretudo em assuntos políticos, deve ser veementemente rechaçada. Esse é o caminho mais curto para a barbárie. Não precisamos apontar casos específicos e pontuais para corroborar esse argumento: basta vermos que, em um país como o Brasil – que não se encontra oficialmente em guerra contra nenhuma nação, nem passa oficialmente por qualquer guerra civil –, mais de 1 milhão de pessoas foram assassinadas em 30 anos; isso equivale a mais de cem pessoas por dia, um número que é muito superior à maior parte dos conflitos armados do mesmo período. E, aqui mesmo, à margem do mundo civilizado, vemos esforços coordenados e diuturnos para empurrar Deus e os cristãos de volta para o tempo das catacumbas. A única forma de não cairmos no abismo do terror mais abjeto e puro é mantermos posição e mostrarmos que uma sociedade minimamente digna é aquela em que a adoração a Deus é um dos fundamentos do homem. E a própria história o mostra.

Em 1914, eclodiu um dos conflitos armados mais sangrentos e desumanos da história: a Primeira Guerra Mundial. Solzhenitsyn, quando falou a respeito dela, disse que “a única explicação possível para essa guerra é um eclipse mental dos líderes da Europa causado por terem ignorado a existência de um Poder Supremo sobre eles”. Nunca, até então, o esplendor tecnológico humano foi posto a serviço da carnificina. Entretanto, mesmo em meio a trincheiras cheias de homens sujos e cansados, embotados de dor e medo, Deus se fez presente naquele ano de uma maneira surpreendente. Ao longo do front ocidental, em que lutavam forças alemãs e inglesas, mais de cem mil soldados depuseram suas armas durante o Natal, saíram de suas trincheiras, cruzaram campos devastados e sem vida, e uniram-se a seus inimigos para comemorar o nascimento de Cristo Jesus. Inimigos que tentaram obstinadamente se matar em dias anteriores passaram a dividir mais do que o esforço para eliminar o outro lado: dividiram refeições, funerais, canções natalinas, e, em alguns casos, até mesmo presentes.

Soldados alemães do 134º Regimento Saxão e soldados ingleses
do Regimento Real Warwickshire durante o Natal de 1914.

Ontem, nós cristãos comemoramos o Natal. Temos presenciado que, hoje em dia, nem mesmo a festa mais importante de toda a civilização ocidental passa incólume ao aviltante materialismo que tem destruído as bases da vida humana. No entanto, o verdadeiro espírito do Natal – o nascimento de Jesus Cristo, o Verbo Divino que se fez carne e habitou entre nós (João 1, 14) – nunca poderá ser arrancado dos corações daqueles que se mantêm fiéis. Mas não basta manter a chama divina acesa em nossos corações. Nós, cristãos, devemos lutar e perseverar até o fim para que Deus não seja expurgado da vida social e pública de nossa nação; devemos, com nossas palavras e ações, levar Cristo a todos, injetando-o na corrente sangüínea da sociedade, e jamais esmorecer diante da intolerância, da perseguição, nem mesmo da morte. Afinal, o discípulo não é maior do que o Mestre (Mateus 10, 24).

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