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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Estamos no pior momento da nossa história em termos éticos, diz Bernardinho

Estive pessoalmente com Bernardinho somente duas vezes, e guardei dele a melhor impressão possível, que já era boa antes, por meio da figura pública. Com fala rápida e agitada, o treinador campeão do vôlei brasileiro consegue transmitir valores e exalar liderança em seus discursos e conversas, mas sempre preservando a fundamental humildade. Comentei sobre uma de suas palestras aqui, com admiração.

Agora foi a vez de Alexandre Salvador entrevistá-lo para as páginas amarelas da Veja desta semana. Na entrevista, em que sua recente descoberta de um tumor maligno já extirpado de seu rim é tratada pela primeira vez, sem sensacionalismo algum, Bernardinho volta ao tema da liderança, explicando o que é necessário para criar uma juventude com melhores valores, e ataca também a corrupção em sua causa principal, a impunidade. Eis um trecho:

Bernardinho Veja

Tendo chegado hoje de Israel, um país diferenciado quando o assunto é ética, confesso ficar ainda mais mexido com esse discurso. Por que o Brasil abandonou tanto os valores éticos e morais fundamentais para a construção de um país civilizado e respeitado? Por que não conseguimos combater a impunidade que campeia e é inclusive aceita por boa parte da população, como se fosse normal roubar, mentir, delinquir?

A resposta exige um tratado sociológico, cultural e histórico. Só sei que de nada adianta culpar sempre nosso passado, abraçar um tipo de fatalismo pessimista, de que o povo brasileiro sempre foi e sempre será assim mesmo, de que não há nada a ser feito, pois esse é o caminho da desgraça.

Cabe justamente a elite liderar, incutir nos jovens a importância do respeito às regras e ao próximo, o senso de pertencimento a algo maior, que merece ser preservado, o processo civilizatório no trato da coisa pública, enfim. Os esportes podem ajudar, como outras atividades coletivas que ensinem a importância da meritocracia, da responsabilidade individual, do “fair play”.

Mas o Brasil está virado ao avesso. A corrupção se espalhou por todo canto, inclusive nos esportes, como atesta o caso da CBV. Todos querem apenas “se dar bem”, não importa como. As elites, quando podres, não conseguem criar nada além de podridão. O sujeito pode ter um iate e curtir os balneários de luxo, degustar dos melhores vinhos, viajar o mundo de primeira classe. Mas se isso é possível apenas com dinheiro sujo, então ele só não pode gozar de uma coisa: do nosso respeito.

Um povo que julga o sucesso apenas pela conta bancária, não importa como ela foi conquistada, é um povo perdido, condenado. Precisamos de líderes que busquem resgatar os valores éticos abandonados. Ou isso, ou o caos.
Rodrigo Constantino

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