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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Desinformatsiya: a arma russa para conquistar mentes

ESCRITO POR LUIS DUFAUR | 29 JULHO 2015 

nircA desinformação é tão velha quanto o Cavalo de Tróia. No passado ela existiu como um recurso colateral da guerra propriamente dita. Hoje, para o Kremlin a “psico-esfera” é o teatro primordial do conflito.
As fantasias conspiratórias do canal Russia Today põem em prática as “medidas ativas”, táticas psicológicas da velha KGB que o desertor soviético Oleg Kalugin descreveu como “o coração e a alma dos serviços de inteligência”.

Uma torrente de sites e perfis até havia pouco desconhecidos invadiu a Internet. Procedência: Rússia.

Margo Gontar, da escola de jornalismo da Universidade Mohyla, em Kiev, procurou imagens de crianças mortas no Google e as encontrou. Estavam todas em sites de notícias e nas redes sociais com títulos que atribuíam as mortes a gangues fascistas ucranianas treinadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), narra um estudo de Peter Pomerantsev, publicado originalmente no jornal britânico The Guardian.

Peter Pomerantsev está especializado no tema e é autor de Nada é verdade e tudo é possível: o coração surrealista da Nova Rússia (Nothing Is True and Everything Is Possible: The Surreal Heart of the New Russia, PublicAffairs – Perseus Book, EUA, 2014, 256 páginas).
Na realidade, muitas fotos eram antigas, tiradas de crimes que nada tinham a ver com a Ucrânia, ou até mesmo de filmes.

Nos noticiários da TV estatal russa Margo achou, com muito destaque, mulheres gorduchas aos prantos e velhos falando de ucranianos que espancam cidadãos de língua russa. 

Os testemunhos pareciam absolutamente autênticos. Mas Margo notou que as mesmas mulheres gorduchas e os homens machucados apareciam em diferentes noticiários, identificados como pessoas diferentes. 

Em uma notícia, uma mulher era apresentada como “residente em Odessa”. Na notícia seguinte, a mesma mulher era “mãe de um soldado!”. Mais adiante, era uma “moradora de Kharkiv” e depois “ativista anti-Maidan”.

Após a derrubada do voo MH17 da Malaysia Airlines, Margo achou obras-primas de teorias de conspiração pró-russas: um controlador de tráfego aéreo teria identificado jatos militares ucranianos seguindo o avião, por exemplo. Mas não achou nenhuma prova de que o controlador existisse realmente.

Achou dezenas de sites em russo e em inglês que afirmavam que o MH17 fora derrubado pelos EUA, numa tentativa de atingir o avião de Vladimir Putin. 

Outros divulgaram que a bordo do avião só havia cadáveres, colocados antes da decolagem. E muitos se diziam direitistas, antimaçônicos, anti-illuminati e, obviamente, anti-EUA e anti-capitalistas.

Nada disso era verdade, salvo o ódio contra os EUA e a Ucrânia, que escapuliu da bota putinista. 

Margo procurou a imprensa ocidental em busca de informações sólidas, mas também tropeçou. Respeitáveis fontes, como a BBC, ecoavam com frequência a versão originada no Kremlin.

Quem aprofunda a fonte dos truques encontra o manual russo Informação e Operações da Guerra Psicológica: Breve Enciclopédia e Guia de Referência, editado em 2011 em Moscou pela Hotline Telecom e atribuído aVeprintsev et al. 

O livro destina-se a “estudantes, políticos especialistas em tecnologia, aos serviços de segurança do Estado e a funcionários públicos”. É uma espécie de manual para jovens guerreiros da informação. 

As armas da informação, diz o texto, “produzem uma espécie de radiação invisível” sobre seus alvos. “A população nem sequer percebe que está sendo manipulada”. 

Enquanto a guerra tradicional emprega canhões e mísseis, prossegue a enciclopédia, “a guerra da informação é maleável e nós nunca podemos prever o ângulo ou os instrumentos de um ataque”.

A enciclopédia de 495 páginas contém uma introdução à guerra psicológica, um glossário de termos básicos e gráficos que descrevem os métodos e as estratégias de operações defensivas e ofensivas, incluindo “a trapaça operacional” (maskirovka), a “influência matemático-programática”, a “desinformação”, a “imitação, e “a radiodifusão e a TV”. 

Na “guerra normal”, explica a enciclopédia, “a vitória se fundamenta no sim ou no não”; na guerra da informação, ela se baseia na sedução e na contradição postas nas cabeças das vítimas sem que elas tenham consciência disso.

A “guerra da informação” é definida na enciclopédia russa em termos próprios de uma confusa ficção científica. Mas a confusão é aparente e visa despistar os não iniciados. Os mestres desvendam o significado subjacente para os discípulos escolhidos. 

Em 2013, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa, Valery Gerasimov, afirmou que era possível derrotar inimigos lançando mão de uma “combinação de campanhas políticas, econômicas, de informação, tecnológicas e ecológicas” sem confronto físico, mas agindo na “psico-esfera” por uma misteriosa “irradiação”. 

Seguindo esse critério, as guerras do futuro serão travadas não no campo de batalha, mas nas mentes dos homens.

Porém, a desinformação é tão velha quanto o Cavalo de Tróia. No passado ela existiu como um recurso colateral da guerra propriamente dita. Hoje, para o Kremlin a “psico-esfera” é o teatro primordial do conflito. 

A enciclopédia ensina: “Em muitos lugares, a guerra da informação substitui a guerra tradicional”. Ela visa levar a melhor sobre os inimigos da Rússia sem disparar um tiro.

Se a batalha mudar para a “esfera psicológica”, a supremacia tecnológica da OTAN fica irrelevante. No inverno passado, escreveu Peter Pomerantsev, de The Guardian, reuni-me com Rick Stengel, subsecretário de Estado dos Estados Unidos responsável pela formulação da resposta americana às operações da Rússia no campo da informação. 

Desde a anexação da Crimeia, sua equipe postou listas de fatos nas redes sociais para contradizer as desinformações do Kremlin.

Exemplo típico de vetor da desinformatsiya é a Russia Today (RT), emissora internacional de notícias, que prometeu uma visão alternativa da mídia convencional americana. E assim seduziu muitos conservadores que não têm espaço nos órgãos do macrocapitalismo publicitário.

O canal de Putin recebe US$ 230 milhões por ano do Kremlin, diz atingir 700 milhões de telespectadores e ser “o maior provedor de notícias do YouTube”.

Por trás, a diretora da RT, Margarita Simonyan, bate na mensagem da guerra psicológica: “Não existem reportagens objetivas”. 

Não há nenhuma razão para confiar na rede de TV de Putin. Sua principal mensagem é que você não deve confiar na mídia ocidental: essa é a vitória visada. A verdade deve ser sacrificada. 

Uma reportagem da RT insinuava que a CIA inventou o Ebola contra as nações em desenvolvimento. Outra dizia que a guerra civil na Síria foi “planejada em 1997 por Paul Wolfowitz”. 

As fantasias conspiratórias do canal Russia Today põem em prática as “medidas ativas”, táticas psicológicas da velha KGB que o desertor soviético Oleg Kalugin descreveu como “o coração e a alma dos serviços de inteligência”. 

Segundo Kalugin, departamentos inteiros na Rússia se dedicavam a essa singular “subversão: provocar uma cisão dentro da comunidade ocidental, particularmente na OTAN, e enfraquecer os EUA”. 

A tática favorita é plantar histórias falsas, a desinformatsiya, em agências de notícias internacionais. 

Uma reportagem do início dos anos 80 apresentou uma prova médica meticulosamente inventada de que a CIA havia criado a AIDS para exterminar a população afro-americana. 

Mas a nova desinformatsiya é barata, grosseira e colocada online em segundos. O objetivo é criar confusão em torno da verdade. 

Shaun Walker reportou recentemente uma “fábrica de boatos” em São Petersburgo, onde os funcionários recebem 500 libras esterlinas por mês para fingir serem usuários regulares da internet. Com essa máscara assumem a defesa de Putin, postando fotos contra os líderes estrangeiros e espalhando teorias conspiratórias.

Todos esses esforços trabalham para minar a infraestrutura da razão. A argumentação racional se esvai, numa nuvem de incerteza. A vítima fica confusa, deixa de raciocinar, acha que nada tem lógica, só enxerga caos e conclui que carece de sentido prestar atenção na realidade. Nesse momento, ela capitulou.

A guerra da informação de Putin gera condições ideais para a proliferação dos sonhos conspirativos nas direitas populistas, como a Frente Nacional (FN) da França ou o Jobbik da Hungria, que apoiam e são apoiados por Moscou. 

Segundo Pomerantsev, em momentos de incerteza financeira e geopolítica as pessoas adotam teorias bizarras para explicar as crises. 

Mas, por que não procuram a objetividade da verdade?

Aqui começam os mistérios da “radiação invisível” à qual se refere o manual russo da guerra da informação. Qual é a força que os leva a acreditar no confuso, no contraditório, no absurdo, e a se afastar do positivo e do racional? 

Quando a ideia do discurso racional é corroída, tudo o que resta é o espetáculo, a sensação, o sentimento. Isso é prazeroso e convida a não reagir.

O lado que narra belas histórias – que podem ser religiosas, místicas, como as espalhadas pela Igreja Ortodoxa russa a respeito do líder supremo russo – derrotará quem tentar “provar” um fato de maneira ordenada, porque o público vitimado renunciou a aplicar a lógica e o raciocínio, e busca a sensação.

A estratégia de informação do Kremlin visa ao que Stephen Colbert chamou de truthiness (uma espécie de “verdade subjetiva” ou “instintiva”), que prevalece sobre o discurso fundamentado em fatos, na cabeça de quem fez do caos a realidade que comanda o mundo e se refugia na sua fantasia.

“Existem dois possíveis enfoques da guerra da informação”, assevera a enciclopédia russa. O primeiro “reconhece a primazia dos objetos no mundo real” e tenta girá-los numa direção favorável ou desfavorável. Este lado é o que deve perder a nova guerra.

Porém, o enfoque “mais estratégico”, preferido, coloca “a informação antes dos objetos”. Leia-se a informação deteriorada e sorrateiramente caotizada nos laboratórios de Moscou, instrumento que serve à vitória da nova e esquisita guerra.


Luis Dufaur
, escritor, edita o blog Flagelo Russo. via msm.

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