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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma elite podre e os seguidores de Jim Jones


Jim Jones
Em 1978, em Jonestown, na Guiana, o líder da seita Templo dos Povos, de inspiração marxista, levou mais de 900 pessoas a cometerem suicídio coletivo, por envenenamento. Jim Jones, que passou por Cuba e pelo Brasil em sua trajetória insana contra o “sistema”, e que tachava o capitalismo de regime econômico do Anticristo, conseguiu mobilizar uma massa de alienados em prol de sua utopia. Muitos deixaram seu patrimônio para o Partido Comunista da União Soviética. A imprensa progressista enaltecia seu ideal socialista até o dia da tragédia final.
Por que pensei nisso tudo agora? Sei lá. Talvez eu tenha a impressão de que metade do povo brasileiro esteja flertando com algo da mesma natureza: começa como uma utopia igualitária, um confronto ao “sistema”, um Templo dos Povos que vai ajudar os mais pobres, e termina com uma espécie de “suicídio coletivo”, como os venezuelanos já fizeram e os argentinos parecem ansiosos para fazer, aguardando sua vez na fila de espera. Aqueles mais conscientes e esclarecidos sentem calafrios diante da possibilidade irracional. Uma sensação de impotência avassaladora.
Mas eis o ponto central: nada daquilo seria possível sem o apoio de boa parte da elite. Nenhuma revolução proletária, afinal, foi parida do chão da fábrica por proletários. Sempre foi coisa de burguês da elite. O próprio Jim Jones contou com incentivos de jornalistas ocidentais encantados com a alternativa romântica de uma comunidade autossuficiente, em que o lucro seria banido e o amor coletivo triunfaria. Amém!
Já escrevi antes e repito: meu maior desprezo não é pelo eleitor alienado, ignorante, pela vítima de Jim Jones. É por aqueles que deveriam saber mais e lutar contra a irracionalidade coletiva, mas se colocam a serviço do equívoco, jogam lenha na fogueira, ajudam a criar o monstro. O PT jamais estaria onde está sem amplo apoio de boa parte da própria elite que ele tanto cospe no discurso.
São os artistas e “intelectuais” que espalham como o PT é maravilhoso e Lula um “pai dos pobres”. São os jornalistas que adotam postura covarde de não chamar as coisas pelos seus nomes. E com isso vão alimentando a indecência, a imoralidade, o autoritarismo, a corrupção. Sempre com seu duplo padrão moral, com sua indignação seletiva, com seu relativismo, com sua complacência ao que há de pior e mais populista na política nacional.

Lula
Dora Kramer resgatou umtexto seu de 2010 que vem bem a calhar. Fala de Macunaína, nosso “herói sem caráter”. Mas toca no ponto nevrálgico da questão quando aponta sua arma na direção da própria elite, daqueles que ajudaram a criar esse ambiente no qual tudo é permitido para Lula, que goza de um salvo-conduto para baixarias, para canalhice desmedida, para contradições e abusos que jamais seriam tolerados do outro lado. Diz ela:
O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido – abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar – sem que ninguém consiga lhe impor paradeiro, não foi criado da noite para o dia. Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu por obra da fragilidade da oposição.
Esse ambiente é fruto de uma criação coletiva. Produto da tolerância dos informados que puseram seus atributos e respectivos instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem vergonha de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do País, mas não parece se importar de lidar com quem não tem pudor algum.
Está certíssima! São os covardes que alimentam o monstro. São os vendidos que trocam a liberdade por migalhas. São os medrosos que se calam diante da patrulha. São os preguiçosos que se mostram indiferentes. Dora Kramer conclui:
Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte não fosse a permissividade geral. Se não conseguir eleger a sucessora não deixará o próximo governo governar. Importante pontuar que só fará isso se o País deixar que faça; assim como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.
A eleição não está definida e o resultado é incerto. Mas uma coisa é certa: se o PT tiver mais quatro anos de governo para seguir seu projeto ambicioso e autoritário de poder, à custa de nossas liberdades e recursos, isso não pode ser jogado apenas na conta do “povo”; é a elite acovardada, cúmplice, imoral, que está dando corda para ser enforcada depois.
A grande diferença para o caso de Jim Jones é que lá a maluquice, alienação e estupidez fez vítimas voluntárias apenas, à exceção das pobres crianças inocentes sacrificadas por seus pais idiotas. Aqui, esse “suicídio coletivo” é escolhido por metade do povo, mas a outra metade é arrastada junto no turbilhão da irracionalidade…
Rodrigo Constantino

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