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sábado, 4 de abril de 2015

A Igreja Católica medieval criou uma instituição que mudaria o mundo: a universidade

Encontro de doutores na Universidade de Paris
(...) é lugar-comum ridicularizar a Idade Média como uma época de trevas culturais e ignorância. Os colegiais que sequer conseguem apontar cronologicamente a Idade Média parecem convencidos de que foi um período de superstição e repressão intelectual, nada mais. Não é bem (ou nada) assim.
Afinal, foi na Idade Média que surgiu aquela que seria a instituição a mudar o mundo para sempre e para melhor: a universidade. Uma época que cria tal sistema universitário não pode ser associada apenas à ignorância. Era preciso, nas palavras do historiador Lowrie Daly, manifestar “um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber”. Seres puramente supersticiosos jamais iriam se reunir em grupos para debater incansavelmente sobre os mais diversos temas, em busca de verdades e mais conhecimento.
Como atestam os pareceres de historiadores e documentos oficiais, os papas também tiveram papel fundamental nesse avanço do sistema universitário. Muitas vezes intervieram para proteger os alunos e a autonomia das universidades. Em 1231, por exemplo, o papa Gregório IX lançou a bula Parens scientiarum, em defesa dos mestres de Paris, concedendo à Universidade de Paris o direito à autonomia para elaborar suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas. No tempo da Reforma, já havia mais de oitenta universidades na Europa.
Alguns historiadores chegaram a chamar esse período em que as universidades ganharam forma de “a Renascença do século XII”. Muitas obras clássicas foram resgatadas e traduzidas, como aquelas sobre a geometria euclidiana, a lógica aristotétlica, a filosofia natural, ou as de medicina de Galeno. Os estudiosos medievais, ao contrário do que se pensa, não impregnavam tudo com a teologia. A autonomia da filosofia natural estava presente.
Outra evidência de que é preconceito definir esse período como um apagão intelectual é o claro apreço pela lógica nesses pensadores. Trata-se de um testemunho do compromisso com o pensamento racional por parte desses estudiosos. Os escolásticos tinham na razão uma ferramenta indispensável para seus estudos, e tinham que confrontar suas teses com proposições opostas. O método que foi sendo desenvolvido é bem conhecido hoje: enunciado de uma questão, exposição dos argumentos de ambos os lados, manifestação do ponto de vista do autor a resposta às objeções.
O maior desses escolásticos foi, sem dúvida, Tomás de Aquino. Em sua principal obra, Summa theologiae, ele levanta inúmeras questões em teologia e filosofia, e procura respondê-las com argumentos lógicos. Até mesmo a existência de Deus passou por tal crivo. O leitor tem todo direito de discordar de sua conclusão sobre a necessidade de uma Causa primeira, mas não pode negar o surpreendente esforço racional do autor. Uma era de pura superstição jamais produziria um intelecto desses!
Quando pensamos na era atual, em que o politicamente correto asfixia boa parte dos debates livres e os radicais nas universidades ideologizam tudo, não deixa de ser impressionante constatar que havia, em plena Idade Média, um incentivo ao debate construtivo, ainda que limitado às universidades. O espírito crítico, tão importante para o desenvolvimento da cultura e da ciência ocidentais, era alimentado nesses locais sob a proteção da Igreja Católica. Concluo com as palavras do historiador da ciência Edward Grant:
O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como consequência natural da ênfase posta na razão. Com exceção das verdades reveladas, a razão era canonizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais.
Rodrigo Constantino

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