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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Aperitivos da guerra política – I – O discurso básico

 

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As eleições estão chegando e com isso aumenta a importância de nossa participação política. Como estamos em um blog, creio que boa parte da ação dos leitores daqui (que queiram atuar politicamente, é claro) ocorrerá nas redes sociais. É um lugar onde ótimos resultados podem ser colhidos.
Porém, vemos o advento do MAV e um investimento cada vez maior do PT em militância virtual custeada com uma baita grana vinda dos aparelhos do partido.
Seja lá como for, assim como ocorre com qualquer organização, eles podem ser vencidos, principalmente quando suas “receitas” são descobertas. E sabemos que os petistas do MAV possuem um grande arcabouço de técnicas da guerra política. Gramsci, Chomsky, Lakoff e Alinsky estão entre seus tutores.
Como fazemos para reverter o quadro? Uma forma básica envolve conhecermos as técnicas que eles usam, e, desde que essas técnicas não se digladiem com nossos princípios morais, utilizá-las, sem moderação.
Muitos se perguntam: quanto tempo eu preciso para me “transformar” em uma pessoa plenamente apta para a guerra política? Bem, claro que não é algo que ocorre do dia para a noite, pois precisamos mudar nosso mindset nesse processo. Mas também não será preciso que você adquira muitos livros. O fato é que resolvi atender pedidos de vários leitores e criar alguns “tutoriais” rápidos, de fácil digestão, com foco nesse aprendizado.
Esse é o objetivo da série “Aperitivos da guerra política”, que começa aqui. Espero ao menos uma vez por semana lançar um novo texto dessa série, com foco no compartilhamento do máximo possível de conhecimento e dicas de guerra política aos leitores.
Para começar, falarei de algumas características básicas do discurso de alguém que queira participar do debate público. Sempre lembrando que tomo por princípio que seu adversário principal, para o momento, é a extrema-esquerda, representada pelo PT, PCdoB e PSOL.
Hora de começar…
Sempre demonstre estar do lado do povo
O que isso quer dizer? Simplesmente que na política o romance de maior sucesso é o romance dos oprimidos. Não há outra obra que faça mais sucesso do que essa. Exatamente por isso a esquerda moldou seu discurso para atender à este princípio, mesmo que eles sempre estejam mentindo enquanto fazem isso.
Quer exemplos de suas propostas direcionadas ao povo? Para começar, podemos mostrar que o livre mercado em uma democracia liberal ou conservadora fornece um melhor nível de vida para o cidadão pobre. Em qualquer país em que a vida do cidadão pobre é mais digna, todos ganham. O sistema da extrema-esquerda tornou a vida de cidadãos pobres um inferno em países como Cuba e Venezuela, por exemplo. Explique isso para a audiência. E quanto à violência? Mostre-se como adepto de ideias como redução da maioridade penal e demonstre que a turma do PT e PCdoB se opõe a melhorias como essa. Aí é só lembrar à plateia que as maiores vítimas de bestas humanas que cometem estupros e latrocínios são cidadãos pobres, que não tem condições de dirigir carros blindados ou morar em condomínios fechados.
Nunca se esqueça de mencionar o povo (especialmente o mais humilde) como um beneficiário de suas ideias.
Seja inclusivo e pragmático
Qualquer proposta que você fizer deve atender a uma boa parte do eleitorado, muito mais do que apenas às suas convicções. Isso não quer dizer que você deve fugir de seus princípios, mas entender que elaborar uma proposta política vai muito além de traduzir seus princípios em propostas. Se fazer política fosse apenas declarar seus princípios, a guerra política seria uma moleza. Mas a realidade é bem diferente.
Lembre-se que a esquerda faz isso para conquistar o poder. Veja quantas das propostas do PT são uma cópia dos parâmetros do Manifesto Comunista. Simplesmente nenhuma. Mesmo assim, pouco a pouco, a implementação das propostas deles vai pendendo a balança para o socialismo.
Isso ocorre por que eles pensam muito além dos princípios que possuem, mas em propostas que incluam mais pessoas do que os puristas do lado deles, e que, na medida do possível, em implementações sucessivas, fazem a balança ir pendendo para o objetivo final. Fazer isso, em política, é praticamente uma arte.
Seja combativo e demonstre confiança na vitória
Sempre demonstre “gana” de vencer, e, muito mais importante do que isso, deixe bem claro para o público sua confiança na vitória.
Para quem usa o direitismo depressivo, sei que este é um aspecto particularmente crítico, mas não podemos ignorar os fatos: ninguém que não tem compromisso particular com você está interessado em seguir as ideias políticas de alguém que não confia em sua vitória. Ou mesmo em sua capacidade de vencer.
Gosto sempre de lembrar da cena inicial do filme “Resgate do Soldado Ryan”. Visualize-se por um momento como um soldado naqueles barcos cujas tampas são abertas em plena Praia de Omaha, na Normandia, enquanto rajadas de metralhadoras nazistas são lançadas em sua direção. Quem você acha que é capaz de liderar um grupo para uma possibilidade de vitória? Aquele que disser “vamos para cima desses nazistas” ou aquele que choramingar “vamos todos rezar e morrer juntos”?
Parece um tanto óbvio que o eleitor não está interessado em dar atenção àquele que busca a última opção.
Demonstre senso de urgência
Demonstrar senso de urgência significa ser capaz de exprimir a importância da implementação de suas ideias, o quanto antes. Se formos comparar com o direitismo depressivo, o resultado da implementação do senso de urgência é praticamente o oposto. Enquanto o primeiro destrói resultados e faz praticamente propaganda para o adversário, o segundo motiva as pessoas a ir para seu lado e, melhor ainda, consegue aumentar seu exército, em alguns casos.
Esteja do lado da mudança, praticamente como um guerreiro contra “o que está aí”
A expressão “mudança” deve ser uma constante em seu discurso, por uma dinâmica básica: como Schopenhauer muito sabiamente descobriu, a vida humana é um amealhar de sofrimento, permeado por algumas pitadas de felicidade. Isso é ainda mais verdadeiro para o cidadão comum.
Muitos não sabem como vai ser o dia de amanhã, ficam aflitos enquanto os filhos não voltam para casa de noite e vivem inseguros. É, não é fácil. Por isso mesmo, quem é enfático ao se exibir como alguém em prol de mudança tende a ser ouvido com muito mais facilidade.
Seja um provedor de esperança, sem esquecer dos símbolos do medo
Horowitz disse que a política é definida pela exploração adequada dos símbolos de medo e esperança. Isso significa apresentar seu oponente como alguém a ser temido, e aqueles a quem você defende (você próprio incluído) como provedores da esperança em relação a dias melhores, e também como neutralizadores do motivo para você ter medo do adversário.
Um exemplo claro de como os neo-ateus fazem isso brilhantemente (embora desonestamente) é quando eles afirmam que a espécie humana pode se extinguir por causa da religião. Logo, o símbolo “medo” é usado para apresentar os religiosos como pessoas a serem temidas. A partir daí, eles se posicionam do lado da “ciência” (em oposição aos religiosos, segundo eles) e dizem que isso irá criar um mundo próspero. Esta é a tônica do provedor de esperança que também usa os símbolos do medo.
Dica: combine ambos. Não use apenas medo, mas também esperança. Isso por que o uso da simbologia do medo em excesso pode levar ao desânimo e ao desespero, ou seja, o oposto do objetivo da comunicação política, que deve ser feita para gerar ação e motivar pessoas a apoiarem sua ideia e em alguns casos até lutarem ao seu lado.
“Venda” tolerância
“Vender” tolerância não é o mesmo que ser tolerante. Você pode ser absolutamente intolerante a ideias inaceitáveis e amorais, mas, ao mesmo tempo, sempre defender a tolerância.
Mas como funciona isso, perguntaria o aprendiz político? Simples. Basta que nos momentos em que você se torna intolerante a ideias abusivas, demonstre estar apenas executando um imperativo moral. Mas, ao mesmo tempo, afirme que seu discurso defende a tolerância, ao contrário dos seus oponentes.
É importante ver isso funcionando na prática. Neste blog, por exemplo, eu sempre uso de tolerância e raramente ofendo os meus adversários políticos. Mas tenho um imperativo moral de ser intolerante com as ideias mais abjetas defendidas pela turma do PT e PCdoB, como por exemplo escravidão e censura.
Minha tolerância natural durante o debate de ideias não me impede de reagir ferrenhamente à monstruosidades morais. Ou seja, eu sou intolerante em relação à monstruosidades morais, executando nesse aspecto apenas a obrigação de qualquer pessoa moralmente sadia. Mas, no curso de meus debates, defendo a postura tolerante e denuncio meus adversários quando são intolerantes e incapazes de dialogar.
Quando possível, seja engraçado/sarcástico
Essa é uma regra a ser usada com moderação. Quando você está fazendo piadas e usando de sarcasmo sobre o seu oponente, está sub-comunicando para a plateia aspectos ridículos do adversário. Daí basta concluirmos o óbvio: todo mundo que é representado como ridículo ou digno de riso está perdendo pontos politicamente.
Segundo Saul Alinsky, o ridículo é a arma mais poderosa do ser humano, pois quem foi ridicularizado não encontra uma resposta adequada com facilidade.
Posicione-se acima dos partidos (e lados políticos), e amparado pelos fatos
Parece que aqui eu estaria entrando em contradição com algo que sempre refutei: o mito da superação da direita e esquerda. Nada disso. É fato que não dá para superarmos esquerda e direita, e nem mesmo superar os partidos.
O que proponho aqui é bem diferente: demonstrar suas ideias como óbvias, sendo bem claro ao dizer que elas devem ser aceitas por qualquer pessoa de bom senso, independentemente de sua posição política. Ou seja, você fala para todos os cidadãos de boa consciência. Em seguida, basta dizer que os fatos mostram que você está certo, e os fatos estão acima de qualquer divergência política.
Tome a democracia como um princípio que não está sob discussão
Sempre, em toda e qualquer ocasião, apresente a vontade do povo como soberana. Isso significa usar e abusar da defesa da democracia. E não há motivos para que você não acredite nisso, além do fato de que historicamente seus adversários estão relacionados às ditaduras mais sangrentas da humanidade.
O frame “democracia” é poderoso pois comunica à audiência que a opinião deles vale alguma coisa e nada é imposto sobre eles. Quer dizer, você diz que os outros devem aderir à sua ideia não por imposição, mas por que você tem melhores argumentos e um ideal mais nobre. Mas a partir do momento em que alguém diz que “não acredita na democracia”, sub-comunica exatamente o oposto para o eleitor, tornando-se alguém que quer impor suas ideias sobre os outros.
Alguém já viu aquele aparelhinho chamado “Radarcan”, usado para espantar baratas? O discurso proclamando “perda de fé na democracia” funciona exatamente da mesma forma, só que para espantar eleitores e partidários.
Tenha uma causa (além de metas)
Quem assistiu o filme “O Mensageiro”, de Kevin Costner, provavelmente se lembra de uma cena final onde o vilão do filme, o General Bethlehem, luta contra o personagem Carteiro, interpretado por Kevin Costner. Bethlehem diz o seguinte: “Você não luta por nada, você não acredita em nada…”. No que o Carteiro responde: “Eu acredito nos Estados Unidos da América!”. É uma cena para levantar a plateia.
Pessoas que acreditam em um ideal são muito mais bem vistas do que aquelas apenas focadas em destruir ideais dos outros. Claro que você deve ter como missão esmagar as ideias ruins de seu oponente, mas sempre mostrando que há uma causa mais nobre acima de tudo.
Os esquerdistas dizem lutar por “igualdade”. A direita deveria sempre mostrar lutar por “liberdade, justiça e igualdade de direitos”.
A partir disso, você pode (e deve) defender metas, todas elas alinhadas com essa causa. Por exemplo, a derrubada de uma lei de mídia está alinhada com a causa da liberdade. Da mesma forma, o fim (ou limitação) da doutrinação marxista está alinhada com a mesma causa.
Posicione-se como representante dos mais altos valores morais
Como uma extensão do ponto anterior, acostume-se a mostrar a diferença moral entre você e seus oponentes. Acho que esse ponto é um dos mais fáceis: é muito fácil mostrar que estamos diante de monstros morais, e que nossos ideais são muito mais elevados que os deles.
Nos vários itens que trouxe aqui, falei de valores morais, como democracia, liberdade, compaixão, justiça e assim por diante. Nunca se esqueça de comunicar isso, sempre que tiver oportunidade. Ao mesmo tempo, mostre seu adversário como seu oposto nesses valores morais.
Aqui a regra é similar àquela falando do uso dos símbolos de esperança e medo. A diferença é que aqui você mostra-se como portador dos mais altos valores morais, e seu adversário como um dos manifestantes das profundezas da depravação humana.
P.S.: A próxima parte dessa série, muito provavelmente na semana que vem, falará dos principais recursos que você deverá usar, incluindo controle de frame, uso de frases de efeito, rotulagem e propaganda. Também haverá uma parte 2 para elementos do discurso básico. Mas deixarei isso um pouco mais a frente, pois a ideia é exatamente essa: ir servindo aperitivos, para não empanturrar ninguém. Aqui já existe uma parte bem utilizável do conteúdo para a prática na interação política nas redes sociais. 

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